por Wagner Rodrigues Marques
Depois de certo tempo no ostracismo estou de volta para comentar sobre a 7ª Bienal do Mercosul, intitulada “Grito e Escuta” [www.fundacaobienal.art.br] que aconteceu de 16 de outubro a 29 de novembro de 2009 em Porto Alegre. Foram sete diferentes mostras, sendo que cinco ocuparam os armazéns do cais do porto [Absurdo, Ficções do Invisível, Biografias Coletivas, Texto Público e Árvore Magnética] e duas ocuparam o Museu de Arte do Rio Grande do Sul - MARGS e o Santander Cultural [Desenho das Ideias e Projetáveis, respectivamente]. Além disso, as obras e intervenções da bienal materializaram-se também em outros espaços urbanos não-convencionais, como o Mercado Público, o Parque da Redenção e as próprias ruas da cidade.
Concomitante e paralelamente a Bienal do Mercosul, ocorreu a Bienal B [www.bienalb.org], que em 2009 desenvolveu sua segunda edição. Uma iniciativa de jovens artistas, sendo a maioria estudantes do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. As obras foram expostas em diferentes espaços da cidade, de galerias a bares.
Ao entrar no armazém A3, na Mostra Absurdo, percebi que a ideia de estranhamento e transformação foi justamente a grande sacada. Ali, refletia-se a instabilidade das coisas. Os elementos do ambiente se alteravam ao longo do evento. O espaço foi todo coberto com areia, formando um relevo de dunas, morros, vales e planícies. Este deserto, no passado, era um terreno alagado e navegável. Porém, as águas se foram, restando apenas o solo instável e suas miragens. Na medida em que as pessoas deslocavam-se, marcas na areia eram impressas e essa estrutura ia sofrendo transformações constantes. As crianças foram incentivadas a soltarem a imaginação através da criação de esculturas na areia, questionando e ao mesmo tempo rompendo com certas formalidades que tendem a engessar a arte. Foi nesse contexto que me deparei com o personagem Marujo Mascate, do carioca Cabelo [Marujo Mascate, o retorno, na Foz da língua da Serpente]. A trilha sonora era a música La Mer de Debussy.
Já no armazém A4, na mostra Ficções do Invisível, o colombiano José Alejandro Restrepo desenvolveu sua obra [Variações sobre Santo Jó] baseando-se em duas projeções em escala de cinza [variando entre o preto e o branco], uma sobre um plano vertical e outra sobre um plano horizontal. A visão que se tinha era de um homem [representando Jó] envelhecido, magro, degradado, utilizando fralda e uma máscara de lutador mexicano e que executava certos movimentos. No chão o mesmo homem parecia estar semi-morto, mas eventualmente também executava pequenos movimentos. No primeiro olhar que lancei sobre as projeções senti a sensação de limitação e morbidez diante da implacável ação do tempo sobre a frágil figura humana. A ideia do autor foi denunciar o uso recorrente do flagelo em países nos quais a religião católica justifica a sanção física do pecado e promove o sentimento de culpa.
Variações sobre Santo Jó
Ainda na mostra Ficções do Invisível, a argentina Ana Gallardo apresentou o seu audiovisual [A boca de jarro] que consiste em uma ácida crítica ao sistema argentino, onde sua protagonista Silvia Mónica [que representa uma prostituta de cabaré] denuncia uma série de situações relacionadas à prostituição infantil, como desigualdade social, pobreza, violência, concentração de renda e conivência e participação na rede de prostituição de setores da sociedade, como políticos e polícia. Além da falta de investimentos em saúde, educação e na arte contemporânea.
A boca de jarro
Outro colombiano que apresentou um trabalho interessante, na mostra Ficções do Invisível, foi Gabriel Sierra, com a obra "Composição espacial para organizar uma semana". A intenção foi questionar as fronteiras, os limites, propondo a construção de alternativas às funções específicas de cada espaço. Para isso Sierra utilizou-se de estruturas de vidro que apresentavam caminhos diversos, que tinham que ser contornados. O autor da obra questiona as estruturas invisíveis que regem nossa vida cotidiana: o ordenamento do tempo, em meses, semanas e dias, e o ordenamento do espaço em construções com funções determinadas. Uma das questões levantadas por Sierra foi: como poderia ser um espaço não predeterminado, mas resultante de um vocabulário que se constrói no fazer?
Na mostra Biografias Coletivas, que ocorreu no armazém A5 do cais do porto, eu gostaria de destacar a instalação “Ao Contrário da Orientação Natural”, que foi desenvolvida pelo coletivo Hoffmann’s House, formado pelos chilenos Rodrigo Vergara e José Pablo Díaz. Os rapazes utilizaram uma árvore de ponta-cabeça, com a presença de 30 fones de ouvido pendendo dos galhos. O interessante é que a dupla chilena selecionou bandas de Porto Alegre para participação no projeto. As bandas tiveram um prazo para enviar os arquivos em formato mp3, através da internet. Alguns dos critérios utilizados na seleção foram: bandas não-profissionais e que utilizam a música como tradução da complexidade da realidade em que vivem. Em cada fone rolava uma música diferente de uma banda desconhecida [tão desconhecida que nem a produção, nem os mediadores sabiam os nomes das bandas]. Ao colocar os fones ouvia-se gritos; ruídos; sons crescendo progressivamente, num clima de tensão; efeitos; versos bizarros entre outras coisas impossíveis de serem explicadas através de palavras.
Ao contrário da orientação natural
Após passar pela árvore “ao contrário”, logo avistei a construção sonora [Microfônico I e II] produzida por Luiz Zerbini, Sergio Mekler e Barrão do coletivo Chelpa Ferro, do Rio de Janeiro, que não pode deixar de ser mencionada. A instalação foi desenvolvida a partir da fixação de um trilho na parede com um motor que conduz o microfone que fica pendurado pelo cabo e conectado a um cubo/amplificador. Com o deslocamento do microfone pela boca dos cilindros, vasos ou jarros [com diferentes tamanhos e alguns contendo certas quantidades de água] ocorre a captação das vibrações criadas a partir da reverberação do espaço interno de cada um. Cilindros maiores geram sons mais graves e cilindros menores geram sons mais agudos. Essas microfonias amplificadas em diferentes frequências criam uma composição sonora. O motor é ativado pelo próprio público, através de um pedal industrial.
Microfônico
Um trabalho que também merece destaque na mostra Biografias Coletivas é do artista francês Nicolas Floc’h, que produziu junto com moradores de três comunidades da capital gaúcha [Comunidade Autônoma Utopia e Luta, do Centro; Instituto Murialdo, do Morro da Cruz; e Escola Estadual Heitor Villa Lobos, do bairro Lami] o projeto “A Grande Troca”. A proposta de Floc’h foi construir em madeira e materiais reciclados objetos que representassem desejos reais e coletivos, aos quais essas comunidades não têm acesso. As obras [assinadas pelo artista e pelas respectivas comunidades] podiam ser adquiridas, desde que fossem trocadas pelo objeto real que representavam. Grande parte das obras foi adquirida por interessados, a maioria pelo Museu de Arte de Lima – MALI.
Guitarra artesanal
Na mostra Árvore Magnética, que ocorreu no armazém A6 do cais do porto, um dos trabalhos que mais chamou a atenção do público foi o “Módulo Lunar” criado pelo paulista Paulo Nenflídio. O Módulo Lunar é uma construção em tubos e conexões de PVC, placas de PVC, mantas de proteção térmica, rede de plástico, motores diversos, strobos, laser, máquina de fumaça, máquina de bolhas, circuito eletrônico óptico, teclado elétrico, amplificador, exaustores, alarmes e giroflex. A invenção de Nenflídio utiliza espécies de “partituras” criadas pelo autor para geração de sons e trilhas de filmes de ficção científica. São 10 partituras que contam uma história espacial, onde humanos entram em contato com selenitas [seres nativos da lua].
Módulo Lunar
Um dos trabalhos que gerou maior interação com o público foi o “Monumentos Vandalizáveis: Abstração do Poder I e II” desenvolvido pelo artista plástico peruano José Carlos Martinat. A sua escultura em MDF continha a presença de diversas instituições do poder, como o congresso nacional, o palácio do Itamaraty, o ministério da justiça, o centro administrativo de Porto Alegre, a catedral de Brasília, entre outros. Martinat disponibilizou tintas, pincéis e sprays para as pessoas manifestarem suas ideias sobre as obras, que no início da bienal eram totalmente brancas e no término do evento continham diversas cores, rabiscos, xingamentos, protestos, carimbos, desenhos, declarações de paz e amor...
Monumentos Vandalizáveis: Abstração do Poder
No MARGS quase tive problemas com os seguranças. Ao entrar no museu com a câmera na mão já veio um em minha direção comunicar-me que não era permitido fotos lá dentro. Não sei se isso é uma política interna do museu, mas não entendi o motivo de tal exigência . Tudo bem. Coloquei a câmera no bolso e segui com minha tour museológica, na mostra Desenho das Ideias. De repente me deparei com a obra do argentino Fermín Eguía e fiquei fissurado! A forma transgressora como ele expressa fatos da realidade cotidiana, misturados com elementos absurdos me inspirou a querer fotografar aquilo! Olhei para os lados e lá estava o segurança olhando para a minha cara! Merda! Resolvi dar uma volta no ambiente para despistar... Deu certo! Quando voltei para o Eguía parecia que eles tinham me esquecido. Então puxei a câmera do bolso discretamente, pressionei o botão “ligar”, desativei o flash e click. Ninguém viu nada!? Então comecei click, click, click... Eu já estava rindo sozinho e fazendo clicks em vários quadros quando vieram dois seguranças em minha direção: "se não parar de fotografar vai ser convidado a se retirar!" Hahaha! Foi divertido! Apreciem a foto, pois ela foi fruto de uma contravenção.
Quadro de Fermín Eguía [contravenção fotográfica]
Achei muito interessante, também, a animação do gaúcho Andrei Thomaz [Cubos de Cor] inspirada na série [Homenagem ao Quadrado] de Josef Albers. Pois estou lendo o livro “A interação da cor” deste autor e fiquei curioso em conhecer este trabalho de Web Art, que consiste em um jogo baseado em comandos de texto. O início do jogo começa em um ambiente totalmente branco [cubo branco] e na medida em que o jogador se movimenta para outros ambientes [cubos] a sua cor é alterada. Apenas seis cubos possuem cores absolutas e representam a saída para este labirinto virtual. Esse e outros trabalhos apresentados na mostra Projetáveis, que ocorreu no Santander Cultural podem ser vistos em: www.bienalmercosul.art.br/projetaveis.
Além de tudo, foi possível encontrar exposições e intervenções nas próprias ruas da cidade de Porto Alegre, que se tornaram palco para a fertilização do imaginário. Quem caminha pela Rua da Praia, no centro [da Praça da Alfândega em direção ao Gasômetro] passa por uma das intervenções artísticas da 7ª bienal: a instalação “Tapume”. O paulista Henrique Oliveira utilizou compensado flexível, canos de PVC e compensado reciclado para dar vida a “Casa Monstro” [como ficou conhecida] no antigo palacete Casa dos Leões. A impressão é que dentro da casa está crescendo uma bolha, formada por uma massa gigantesca que ultrapassa os seus limites, extrapolando pelas janelas e portas.

Tapume [vulgo, Casa Monstro]
Para concluir eu diria que esta resenha retrata apenas um pequeno fragmento da grande multiplicidade de produções e interações que ocorreram em Porto Alegre durante o período da bienal. O evento trouxe, mais uma vez, para a capital gaúcha a reflexão e a inter-relação com o público. A arte corrosiva, crítica e subversiva, que normalmente não é vista pela maioria das pessoas, se fez presente e viva em diversos locais da cidade, com acesso livre para todos. A bienal lado B também possui uma importância fundamental dentro deste processo, pois traduz a produção artística de caráter local, somando forças no desenvolvimento da arte e da cultura.










